Variáveis psicossociais na relação do excesso de peso com a psicopatologia e os comportamentos de risco na adolescência
Falcão, Marta Alexandre Carvalho de Freitas Rosa
Tese
Tese de doutoramento em Psicologia (especialidade de Psicologia Clínica)
O excesso de peso na adolescência é um emergente problema de saúde pública, que
acarreta consequências físicas e psicossociais, constituindo-se o principal tema desta tese. Esta
dissertação tem em conta dois objetivos centrais: 1) investigar a associação entre o peso e a
psicopatologia nos adolescentes, estudando diferenças entre grupos e o papel mediador do
suporte social; e 2) explorar a associação entre o peso na adolescência e o envolvimento em três
comportamentos de risco, estudando diferenças nas prevalências entre grupos comparativos e
possíveis preditores do uso do tabaco, do uso do álcool e do recurso aos ferimentos
autoinfligidos. Posto isto, cada objetivo foi a base de um estudo de revisão de literatura e de um
estudo empírico, o que culminou em quatro artigos distintos.
Em termos metodológicos e no que diz respeito às duas revisões da literatura, consultaramse
bases de dados científicas para uma análise exaustiva de artigos relacionados. Quanto à
investigação empírica, a amostra consistiu em 370 adolescentes distribuídos por três grupos: I)
205 adolescentes de Índice de Massa Corporal (IMC) normal recrutados aleatoriamente em três
escolas públicas do 3º ciclo e/ou ensino secundário; II) 82 adolescentes da comunidade com
excesso de peso/obesidade que não estavam a receber tratamento para controlo do peso,
também recrutados em meio escolar; e III) 83 adolescentes com excesso de peso/obesidade em
tratamento para redução do peso no Hospital de Braga (grupo clínico). Para classificar o IMC de
acordo com as curvas de percentis de Cole, Bellizzi, Flegal e Dietz (2000), foi realizada uma
avaliação antropométrica. Paralelamente utilizaram-se as seguintes medidas de autorrelato:
Questionário sociodemográfico, Inventário breve de sintomas (Derogatis, 1982; versão
portuguesa, Canavarro, 1999), Questionário de competências emocionais (Taksic, 2000, versão
portuguesa, Faria & Lima Santos, 2001) e Escala de satisfação com o suporte social (Pais-
Ribeiro, 1999). Para a avaliação dos comportamentos de risco para o segundo artigo empírico,
foram adicionadas as seguintes medidas: Questionário de hábitos de consumo e Questionário
dos ferimentos autoinfligidos (Claes & Vandereycken, 2007, traduzido por Gonçalves, 2008).
Quanto aos resultados das revisões de literatura, os dados são pouco consensuais acerca
da relação do excesso de peso com a psicopatologia e com os comportamentos de risco
estudados. Isto porque existem outras variáveis psicossociais que medeiam, moderam ou predizem estas relações, mais do que o peso por si só. Quanto aos resultados empíricos,
verificou-se que os três grupos não diferiram significativamente ao nível da psicopatologia e das
competências emocionais. Todavia, encontramos diferenças ao nível do suporte social. O grupo
comunitário com excesso de peso reportou menor satisfação com a amizade, e o grupo clinico
reportou menor satisfação com o suporte íntimo e com as atividades sociais, quando
comparados com o grupo de peso saudável. O suporte social apresentou um papel mediador na
relação entre o IMC e a psicopatologia. No que diz respeito aos resultados de prevalência dos
comportamentos de risco, verificou-se que 24.4% do grupo de peso saudável, 25.6% do grupo de
excesso de peso sem tratamento e 10.8% do grupo de excesso de peso em tratamento,
assumiram-se como fumadores. Revelaram consumir álcool 68.8% do grupo de peso saudável,
69.5% do grupo da comunidade com excesso de peso e 32.5% do grupo clinico com excesso de
peso. As prevalências de envolvimento em ferimentos autoinfligidos no grupo de peso saudável,
no grupo da comunidade com excesso de peso e no grupo clínico com excesso de peso, foram
de 19%, 25.6% e 14.5%, respetivamente. Os adolescentes com excesso de peso apresentaram
assim, rácios de risco muito similares ou até inferiores (no caso do grupo clínico) aos obtidos
pelos seus pares de peso saudável. Paralelamente, identificaram-se alguns preditores destes
comportamentos, que não a condição de excesso de peso. Relativamente ao uso do tabaco,
constatou-se que o género masculino, a não-integração num tratamento para controlo do peso e
a menor satisfação com a família eram preditores significativos, existindo ainda um efeito
marginalmente preditivo de maior psicopatologia. Já para o uso do álcool, a não-integração no
tratamento e a maior satisfação com o suporte íntimo revelaram-se preditores significativos do
uso do álcool, acrescentando-se ainda o efeito marginal preditivo do género masculino.
Finalmente, verificou-se mais uma vez que a não-integração no tratamento, juntamente com a
maior psicopatologia e a menor capacidade para regular as emoções, prediziam o envolvimento
em ferimentos autoinfligidos. A título de conclusão, é possível afirmar que os adolescentes com
excesso de peso não estão em maior risco de desenvolver estados psicológicos ou
comportamentos disfuncionais, do que os seus pares de peso normal, existindo outros fatores de
ordem psicossocial que podem mediar ou predizer estes aspetos mais do que a sua condição
física. A integração num tratamento para controlo do peso pode ter um papel protetor no
desenvolvimento da psicopatologia e dos três comportamentos de risco estudados. Os dados
obtidos realçam a necessidade de considerar como alvo de intervenção certas variáveis
psicossociais favoráveis ao sucesso dos tratamentos para redução do peso.
Overweight in adolescence is an emerging public health problem that carries physical and
psychosocial consequences, becoming the main theme of this thesis. This dissertation has two
main objectives: 1) to investigate the relationship between weight and psychopathology in
adolescents, studying between-group differences and the mediating role of social support; and 2)
to explore the relationship between weight in adolescence and the involvement in three risk
behaviors, studying the differences in prevalence between comparative groups and possible
predictors of the use of tobacco and alcohol and the engagement in self-injurious behaviors. Each
objective was the basis of a study of literature review and an empirical study, which led to four
different articles.
In methodological terms with regard to the literature reviews, there were consulted scientific
databases in order to reach an exhaustive analysis of related articles. Regarding the empirical
investigation, the sample consisted of 370 adolescents distributed in three groups: I) 205
adolescents with normal body mass index (BMI) randomly recruited in the 9th to 12th grades from
public schools; II) 82 adolescents of the community with excess of weight/obesity who were not
receiving any treatment for weight control, also recruited at school environment; and III) 83
adolescents with excess of weight/obesity who were receiving treatment to weight loss at
Hospital of Braga (clinical group). To classify BMI according to the percentile curves of Cole,
Bellizzi, Flegal and Dietz (2000), it was made an anthropometric evaluation. Additionally, there
were used the following self-reported measures: Socio-demographic questionnaire, Brief
symptom inventory (Derogatis, 1982; Portuguese version, Canavarro, 199), Emotional skills and
competence questionnaire (Taksic, 2000, Portuguese version, Faria & Lima Santos, 2001) and
Social support satisfaction scale (Pais-Ribeiro, 1999). Regarding evaluation of risk behaviors for
the second empirical article, the following measures were added: Questionnaire of consumption
habits and Self-Injury Questionnaire – Treatment Related (Claes & Vandereycken, 2007,
translated by Gonçalves, 2008).
Regarding results of literature reviews, data are not quite consensual about the relationship
of overweight with psychopathology and the analyzed risk behaviors. All this, because there are other psychosocial variables that mediate, moderate or predict these relationships, more than
weight by itself. Regarding empirical results we were able to verify that all the three groups were
not significantly different, regarding psychopathology and emotional competences. However, we
found differences regarding social support. The overweight community group reported less
satisfaction with friendships and the clinical group reported less satisfaction with intimate support
and social activities, when compared with their healthy weight peers. Social support had a
mediating role in the relationship between BMI and psychopathology. Concerning results of
prevalence of risk behaviors, we were able to verify that 24.4% of the healthy weight group, 25.6%
of the overweight group without treatment and 10.8% of the overweight group being treated,
assumed themselves as smokers. Therefore, 68.8% healthy weight group, 69.5% of the
overweight community group and 32.5% of the overweight clinical group, revealed to consume
alcohol. The prevalence of engagement in self-injury in the healthy weight group, in the
overweight community group and in the overweight clinical group, were respectively 19%, 25.6%
and 14.5%. Overweight adolescents presented risk ratios very similar or even lower (in case of
the clinical group) than the ones got by their healthy weight peers. Additionally, we identified
some predictors of these behaviors, other than overweight status. As for the consumption of
tobacco, it was observed that male gender, not being integrated in a treatment to weight control
and a lower satisfaction with family were significant predictors and there was an effect marginally
predictive of a greater psychopathology. Regarding consumption of alcohol, not being integrated
in a treatment and the higher satisfaction with intimate support were significant predictors of the
referred use of alcohol, still added to predictive marginal effect of the male gender. Finally, we
observed once more that not being integrated in a treatment, higher psychopathology and lower
ability to regulate emotions, predict the presence of self-injurious behaviors. In conclusion, it is
possible to affirm that overweight adolescents are not in greater risk of developing psychological
states or dysfunctional behaviors than their normal weight peers, but there are other
psychosocial factors that may mediate or predict these features more than their physical
condition. Integration in a treatment to weight control may be a safe role in the development of
the psychopathology and in the three studied risk behaviors. The data reached enhance the need
to consider as an intervention target several psychosocial variables favorable to the success of
treatments to weight loss.