COVID-19 e a violência doméstica: impacto na saúde mental das vítimas em casa-abrigo
Cunha, Ana Micaela Sarabando
Miscellaneous
Este trabalho teve como objetivo contribuir para uma compreensão integrada da Violência Doméstica (VD) em contexto (pós-)pandémico. Assenta num desenho integrativo, ancorado no modelo socioecológico, cuja originalidade reside na integração de níveis de análise, metodologias e perspetivas (sistemas, profissionais e vítimas), culminando no desenvolvimento de uma intervenção adaptada ao contexto de casas-abrigo. Ao longo de seis capítulos, foram analisadas as dinâmicas da VD durante a pandemia COVID-19, as respostas institucionais, a experiência de profissionais e vítimas, as consequências psicológicas da vitimação e o desenvolvimento de intervenções. O Capítulo I, uma revisão da literatura sobre violência doméstica durante a pandemia de COVID-19, evidenciou que este contexto funcionou como um amplificador de vulnerabilidades pré-existentes. Fatores como o isolamento social, o stress económico, a deterioração da saúde mental e o aumento do controlo coercivo contribuíram para o agravamento da violência e para a redução da capacidade das vítimas em procurar ajuda. No Capítulo II, um estudo qualitativo, a análise das respostas institucionais revelou um sistema resiliente e vulnerável. Apesar da implementação de medidas como apoio remoto e diversificação de canais de denúncia, foram identificadas fragilidades, incluindo limitações no acesso à justiça e na avaliação de risco em contextos remotos, bem como respostas reativas. O Capítulo III explora, através de uma metodologia qualitativa, a experiência de profissionais a trabalhar em casas-abrigo, evidenciando constrangimentos operacionais, alterações nos padrões de procura e impacto no stress e sobrecarga laboral, sublinhando a importância do bem-estar. No Capítulo IV, a procura de ajuda durante a pandemia foi analisada através de uma abordagem quantitativa, sendo conceptualizada como processo multissistémico, influenciado por fatores individuais, relacionais e estruturais. Variáveis como o isolamento social, o stalking e o controlo financeiro emergem como barreiras ao acesso aos serviços. O Capítulo V analisa o impacto da VD na saúde mental das vítimas através de uma metodologia quantitativa, evidenciando elevada prevalência de perturbação de stress pós-traumático e trauma complexo, frequentemente associadas a comorbilidades como depressão, ansiedade e somatização, reforçando a conceptualização da violência como trauma complexo. Por fim, o Capítulo VI apresenta o protocolo de um estudo randomizado controlado que avalia um programa de intervenção baseado na Terapia Cognitivo-Comportamental Focada no Trauma, adaptado ao contexto de casa-abrigo. Em conjunto, os resultados evidenciam a necessidade de abordagens integradas que articulem políticas públicas, práticas profissionais e investigação, para responder à complexidade da violência doméstica em contextos de crise e no período pós-pandémico.
This work aimed to contribute to an integrated understanding of Domestic Violence (DV) in pandemic and post-pandemic contexts. It is based on an integrative design, grounded in the socioecological model, whose originality lies in the integration of different levels of analysis, methodologies, and perspectives (systems, professionals, and victims), culminating in the development of an evidence-based intervention adapted to the context of shelters. Across six chapters, the dynamics of DV during the COVID-19 pandemic, institutional responses, the experiences of professionals and victims, the psychological consequences of victimization, and the development of evidence-based interventions were examined. Chapter I, a literature review on domestic violence during the COVID-19 pandemic, showed that this context functioned as an amplifier of pre-existing vulnerabilities. Factors such as social isolation, economic stress, deterioration of mental health, and increased coercive control contributed to the escalation of violence and reduced victims’ ability to seek help. In Chapter II, a qualitative study, the analysis of institutional responses revealed a system that was both resilient and vulnerable. Despite the implementation of measures such as remote support and the diversification of reporting channels, structural weaknesses were identified, including limitations in access to justice and risk assessment in remote contexts, as well as predominantly reactive responses. Chapter III explores, through a qualitative methodology, the experiences of professionals in shelters, highlighting operational constraints, changes in demand patterns, and a significant impact in terms of stress and workload, underscoring the importance of their well-being. In Chapter IV, help-seeking during the pandemic was analyzed using a quantitative approach and conceptualized as a multisystemic process influenced by individual, relational, and structural factors. Variables such as social isolation, stalking, and financial control emerged as relevant barriers to accessing services. Chapter V analyses the impact of DV on victims’ mental health using a quantitative methodology, showing a high prevalence of post-traumatic stress disorder and complex trauma, often associated with comorbidities such as depression, anxiety, and somatization, reinforcing the conceptualization of violence as complex trauma. Finally, Chapter VI presents the protocol of a randomized controlled trial evaluating an intervention program based on Trauma-Focused Cognitive Behavioral Therapy, adapted to the context of shelters. Overall, the results highlight the need for integrated approaches that articulate public policies, professional practices, and research in order to address the complexity of domestic violence in crisis and post-pandemic contexts.
O presente trabalho foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I. P. (FCT), através da atribuição de uma bolsa de doutoramento (ref. 2020.10255.BD; doi: 10.54499/2020.10255.BD), no âmbito do programa DOCTORATES 4 COVID-19, com financiamento do Fundo Social Europeu (FSE), dos Programas Pessoas 2030 e Portugal 2030, bem como da República Portuguesa/Ciência, Educação e Inovação.